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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

MAPA DO ARTESANATO EM SÃO CRISTÓVÃO II: NIVALDO OLIVEIRA



Nivaldo Oliveira e seu universo artístico

Thiago Fragata
Ele chegou em São Cristóvão para trabalhar na restauração da Igreja Nossa Senhora do Carmo terminando esta trabalhou na Matriz, dedicada a Nossa Senhora da Vitória, a padroeira da cidade. Era 2009. Extasiado de tanta arte, arte em toda parte do centro histórico, foi ficando. Hoje o patrimônio cultural do lugar é o tema predominante em sua produção. Nivaldo Oliveira é o seu nome, nascido em Salvador, Bahia, no dia 26 de dezembro de 1968, detém o segredo das tintas e dos formões. Seu talento brotou num Curso de formação de mão-obra para restaurações ofertado pela Universidade Federal da Bahia Faculdade de Arquitetura em 29/09/1992 a 18/12/1992.

LEMBRANCINHAS DE SÃO CRISTÓVÃO
Como artista plástico participou de coletivas diversas, dividindo salões com Caribé e Nelsino Pastor, dentre outros expoentes. Artista plástico, restaurador, escultor, desenhista, xilogravurista, decorador... decorador porque suas coleções e inovações embeleza lojas de antiquários e requintados ambientes traçados pela expertise da moderna arquitetura ou designers.
Arte para decoração é uma outra especialidade do artista

"ORGULHO É TER UM NIVALDO OLIVEIRA NA SALA"
Mas você turista que visita São Cristóvão e tem casa montada, sergipano que flana pelas ruas centenárias da ex-capital, conheça o atelier do artista e compre uma lembrancinha. Pode ser um imã de geladeira com a gravura da Praça São Francisco ou do cangaceiro Lampião, custa apenas R$ 3,00 o souvenir! mas no espelho de talha dourada você investe R$ 1.200,00 (mil e duzentos reais), a Nossa Senhora da Conceição custa R$ 2.800,00 (Dois mil e oitocentos reais). Achou caro? Imagine quanto valerá a obra daqui há um ano, cinco, dez... Tenha certeza que o tempo só aumentará o valor e elevará o confirmará Nivaldo Oliveira no seleto grupo dos gênios de uma arte sem igual produzida no país. Refiro-me as xilogravuras e a arte sacra, em especial. Lamentar é para quem desconhece a arte do magnifíco artista, inveja é para quem não pronuncia “tenho um Nivaldo Oliveira na minha sala”. 
Artista faz santos por encomenda
XILOGRAVURA EM DESTAQUE
O atelier de Nivaldo Oliveira fica na Praça do Carmo, na sede da ACIJOBA (Ação e Cidadania João Bebe-Água), instituição que acolhe a arte e seus expoentes, realiza cursos diversos e desenvolve um importante trabalho na comunidade. Além de Nivaldo Oliveira que atende pessoalmente os visitantes, é possível encontrar a arte de Gladston Barroso, Vesta Viana e Marcio Passos. Na mesma bancada que manuseia a prensa das muitas xilogravuras, um cristo crucificada dormita há meses ganhando forma nas batidas diárias da goiva. Suas xilogravuras, de todo tamanho – começou a primeira série colorida - já despertam a atenção dos cordelistas e estudiosos da arte de J. Borges e Eneas Tavares.
Arte de Marcio Passos na ACIJOBA
Arte de Gladston Barroso na ACIJOBA

No ano de 2013, a coleção de xilogravuras que o artista produziu para exposição “Cangaço: por dentro do enborná e na ponta do punhá”, do Museu Histórico de Sergipe despertou o interesse da editora Oxford que comprou os direitos de alguns trabalhos de sua lavra para marcar livros didáticos. O historiador Thiago Fragata lançará “São Cristóvão poética e xilogravada”, que será ilustrado por Nivaldo Oliveira.
Cristo crucificado ganha forma na bancada de Nivaldo
xilogravura ilustrará livro de poesias

COMO CHEGAR?

ATELIER DE NIVALDO OLIVEIRA (ACIJOBA)
Praça do Carmo, N. 35
Nivaldo Oliveira (79) 8824-2819


ACIJOBA acolheu a arte de Nivaldo Oliveira
A próxima postagem será sobre AS BONEQUEIRAS DE SÃO CRISTÓVÃO. Aguardem!

sábado, 6 de outubro de 2012

Memórias do cangaço na pisada de Lampião

Grupo de Teatro e Xaxado "Na Pisada de Lampião". Foto: divulgação
 
 
 Jéssica da Silva Souza*
 
Localizado a 184 Km de Aracaju, Poço Redondo, município do sertão sergipano, carrega marcas muito fortes do cangaço em sua história. A morte de Lampião na Grota do Angico, a 28 de Julho de 1938, não pôs o cangaceiro e seu bando no esquecimento. Pelo contrário, trouxe diferentes formas de apropriação de sua memória pela população da região. O Grupo de Teatro e Xaxado Na Pisada de Lampião, criado em Julho de 1997 por Beto Patriota, Raimundo Cavalcante e Dionízio Cruz, surge como mais uma iniciativa em prol de manter vivas memórias do cangaço no município. Através do xaxado, dança que surge dentro do próprio cangaço, o grupo apresenta ao público um pouco das memórias passadas de pais para filhos ao longo do tempo.

Dança guerreira, o xaxado normalmente com estrofes improvisadas que falavam de situações do cotidiano da experiência do cangaço, geralmente carregava nas letras das músicas críticas à conjuntura social e política da época. No cangaço, estava ligada ao lazer, dançava-se em comemoração, por exemplo, à vitória em uma batalha contra uma volante. Sendo tipicamente masculina, pois no início não havia mulheres nos bandos, dançavam seguindo em fila indiana formando também figuras geométricas e colunas. Sempre armados, se divertiam geralmente ao som de algum instrumento musical ou somente ao das alpercatas de rabicho, junto com a marcação feita em seus rifles. O passo do xaxado, chamado de “pisada”, envolvia vários movimentos com os pés num rápido e deslizado sapateado.

Segundo Beto Patriota, um dos fundadores e atuais coordenadores do Grupo de Teatro e Xaxado Na Pisada de Lampião, eles buscam reproduzir a dança o mais próximo possível de como ela era na época do cangaço, mas também inovam e usam bastante a criatividade para criarem as coreografias. As músicas trazem em suas letras as mais variadas situações referentes ao cangaço ou tão simplesmente à vida do sertanejo, com sua religiosidade e crenças. Músicas bastante conhecidas como “Mulher Rendeira”, “Ave-Maria sertaneja” e “Cavalos do cão” compõem o repertório do grupo. E não somente isto, eles também se utilizam de encenações teatrais em suas apresentações. Cada um deles recebe o nome de alguns dos cangaceiros que pertenceram ao bando de Lampião, como por exemplo, Rogéria e Serginho que tem como personagens “Maria Bonita” e “Lampião”, e ainda Marcos, que representa o cangaceiro “Corisco”. Assim, a trupe monta cenas que geralmente divertem bastante o público pelo seu caráter cômico na representação dos “causos” contados sobre o bando de Lampião.

Através da dança, músicas e encenações, o grupo expressa a importância de Poço Redondo no cenário da história do cangaço. Isto permeia suas apresentações, onde buscam afirmar esse momento da História como parte de sua cultura. Assim, a memória do cangaço surge não apenas como lembranças, mas como um dos fundamentos da identidade dos moradores do município. Dentre os temas recorrentes, é possível destacar também a figura do sertanejo, mais especificamente do cangaceiro, como um homem valente, destemido, um homem que anda sempre armado para se proteger, e cuja valentia é motivo de honra e não de vergonha.

A figura da mulher cangaceira também é explorada pelo grupo, uma mulher que desafiava uma sociedade machista e conservadora. A cangaceira quebra o estereótipo da mulher comportada da época, mulher que não deveria pegar em armas e também nunca levantar a voz para ninguém. Outro tema abordado é a religiosidade. Os componentes entram em um momento de oração e se expressam no tocante a representar crenças do bando de Lampião. Há ainda a representação de festas, momentos de lazer, refeições e outros temas ligados ao cangaço.

Embora ainda haja uma grande disputa em torno das memórias do cangaço no tocante a figura de Lampião como herói ou bandido, o grupo teatral sertanejo está mais voltado para a apropriação dessas memórias como algo constitutivo de sua cultura. É inegável que Poço Redondo assumiu um lugar considerável no palco da história do cangaço. Na pisada de Lampião, os artistas locais afirmam isso através da música, da dança e do teatro, enfim, da arte.   


*Jéssica da Silva Souza é bolsista PET-História e graduanda em História pela UFS. O artigo integra as colaborações à coluna do Grupo de Estudos do Tempo Presente (GET/CNPQ/UFS). 
Fonte: Infonet

sábado, 8 de setembro de 2012

LAMPIÃO: bandido, herói e outros adjetivos

Lampião, xilogravura de Nivaldo Oliveira compõe exposição do MHS

Thiago Fragata*



O cangaço influenciou boa parte dos movimentos sociais que pontificaram o Brasil no século XX. No século XXI o fato se renova, a insinuação da homossexualidade de Lampião constitui um bom exemplo porque atrelar qualquer tema ao cangaço ou buscar inspiração nele significa atrair público, a opinião pública.  

O fato é que ninguém consegue ficar alheio ao cangaço e seu maior representante, o afamado Virgulino Ferreira da Silva, apelidado Lampião. Já em 1937, Jorge Amado inseriu na sua obra Capitães da Areia uma importante observação: “porque a população dos cinco estados, de Bahia, Pernambuco, Alagoas, Paraíba e Sergipe, vive com os olhos fitos em Lampião. Com ódio e com amor, nunca com indiferença”. Acrescentaria Ceará e Rio Grande do Norte.

Nos dias atuais vemos estudiosos apaixonados pelo exemplo de resistência ao mandonismo dos coronéis e desenvoltura perante as adversidades do sertão nordestino. A saga lampiônica começou em 1918 e findou na Grota de Angicos, Poço Redondo, em 1938, somando 20 anos de ataques, fugas e revides. Invariavelmente, figuram adjetivos nas obras em geral que tematizam o cangaço, mesmo trabalhos acadêmicos com foros de imparcialidade, que desvelam um olhar engajado. Se no meio acadêmico o cangaço tem seus mais ardorosos simpatizantes, com raríssimas exceções, imagina no seio das populações que conviveram e tiveram experiência positivas ou negativas.

A discussão bandido ou herói dividiu e divide a sociedade. Folheando alguns livros recolhemos expressões curiosas e/ou adjetivos que representam opiniões. Vejamos repertório de Frederico Bezerra Maciel, legítimo representante dos defensores da missão divina e heroica de Virgulino Ferreira da Silva:

Rei do cangaço, Senhor absoluto do sertão, Sua Majestade Lampião, Imperador do Sertão, Rei do Norte, Governador Lampião, Hobin Hood do Nordeste, Interventor do Sertão, Sinhô Lampião, Gênio em tudo, Homem de palavra, Justiceiro, O mesmo [para Bahia] o que fora Padre Cicero para Juazeiro, Ídolo de todos, Invulnerável, Invencível, Eterno, Lampião era o povo, Símbolo das reivindicações sociais, O sertão ínterim, Libertador dos homens explorados do sertão imenso, Paterno e dócil na intimidade, napoleonicamente enérgico no comando, Maior guerrilheiro das Américas, Portador de uma luz de inteligência superior, penetrando até os domínios da cultura, dentre outros.

Por outro lado, minoria de estudiosos renitentes, ora estribado no argumento da legalidade, do Estado de direito, ora afetado pelas estripulias praticadas por Lampião e seus asseclas contra populações indefesas, enfileiram acusações e adjetivos contundentes contra o vilão. Para pesquisadores como Frederico Pernambucanos de Mello e Rodrigues de Carvalho a completa definição de Lampião inclui os termos:

 “Criminoso, truculento celerado, bandido sem ética, alienado mental, nocivo, rapace por cleptomania, sadicamente perverso, imoral currador dos infelizes sertanejos, taciturno caolho, refece profissional, tenebroso celerado, avarento, corruptor das famílias, anjinho de asa de morcego, carne de pescoço infernal, catingueiro e sagaz, soturno sicário, miserável refece, terrível sicário, ardiloso sicário semi-analfabeto, espírito de porco espinho, demônio de sagacidade e esperteza, facínora destituído de humanidade, lombrosiano”, dentre outros adjetivos.

No universo da literatura de cordel é recorrente o tema cangaço. Não é difícil encontrar os títulos referente a chegada de Lampião no céu, no inferno e mesmo ao purgatório. Declara Maria Ângela de Faria Grillo que nos cordéis “as representações sobre cangaceiros diferem das encontradas nos livros didáticos o na literatura oficial. Quase sempre tratados como bandidos nestes espaços, nos cordéis são, pelo menos, mais contraditórios”, ou seja, são assassinos mas são românticos, roubam mas ajudam os pobres, enfim, possuem carga heroica.


Lampião dos cordéis mantém traço heróico e contraditório
Numa rápida leitura de A chegada de Lampião no Céu (s/d), de Rodolfo Coelho Cavalcante; de A chegada de Lampião no inferno, de José Pacheco, e A Chegada de Lampião no purgatório (s/d), de Luiz Gonzaga de Lima (1981) captamos a impressão a respeito da polêmica bandido x herói. Lampião retratado por Rodolfo Coelho Cavalcante não merece entrar no céu por isso é mandado ao purgatório. Daí foi expulso por São Miguel, segundo verso de Luiz Gonzaga de Lima. No inferno não ficou, agora expulso por Lúcifer, desde então vaga pelos sertões feito alma penada a soprar estórias e inspirando arte popular nordestina, tudo para não deixar o Brasil esquecer o cangaço.

 
Lampião é o herói-bandido dos cordéis

*Thiago Fragata – pesquisador, especialista em História Cultural pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe (IHGSE) e diretor do Museu Histórico de Sergipe (MHS/SECULT). Matéria especial para o blog do Museu Histórico de Sergipe e sua exposição “Cangaço: por dentro do emborná e na ponta do punhá” (22 de agosto a 22 de setembro de 2012).E-mail: thiagofragata@gmail.com

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA
AMADO, Jorge. Capitães da Areia. 86ª Ed. Rio de Janeiro: Record, 1996.
CARVALHO, Rodrigues de. Lampião e a sociologia do cangaço. Rio de Janeiro: Gráfica Editora do Livro, 1976.
CAVALCANTE, Rodolfo Coelho. A chegada de Lampião no céu. São Paulo: Editora Luzeiro, SD. (Literatura de cordel)
GRILLO, Maria Ângela de Faria. História em verso e reverso. Revista de História da Biblioteca Nacional. Rio de Janeiro, ano 2, N. 13, out. 2006, p. 82-85.
LIMA, Luiz Gonzaga de. A chegada de Lampião no purgatório. São Paulo: Editora Luzeiro, 1981 (Literatura de cordel)
MACIEL, Frederico Bezerra. Lampião, seu tempo e seu reinado. 2ª edição. Ed. Vozes. Petrópolis, 1982.
MELLO, Frederico Pernambucano. Guerreiros do Sol: Violência e Banditismo no Nordeste Brasileiro. Recife: Massangana/Girafa, 2004
PACHECO, José. A chegada de Lampião no inferno.  São Paulo: Editora Luzeiro, SD. (Literatura de cordel)

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

O cangaço em Sergipe

Maria Bonita e Lampião, escultura de Felix Santos, compõe exposição no MHS.

 Carlos Brás*


O pequenino Sergipe, entre todos os estados pelos quais o flagelo do cangaço deixou suas marcas, tem lugar de destaque. Entramos definitivamente para a história do banditismo nacional, de forma excepcional e definitiva, no dia 28 de Julho de 1938, quando na gruta de Angicos, localizada no município de Poço Redondo, o tenente alagoano João Bezerra e sua volante, liquidou Virgulino Ferreira da Silva, o afamado Lampião, e parte de seus seguidores, interrompendo um reinado de quase 20 anos.

O fenômeno social cangaço teve como pano de fundo o sofrido sertão nordestino com sua temível caatinga, ambiente inóspito, pouco povoado, onde só os fortes sobrevivem. O Raso da Catarina, em território baiano, sintetiza toda a insalubridade e aridez dessa região do Brasil. Tempos medonhos aqueles, onde a presença do estado quase não se fazia notar com o domínio socioeconômico exercido por poderosos coronéis, proprietários de imensos latifúndios, soberanos da terra e da gente, da vida e da morte. A miséria e os constantes conflitos políticos e familiares estão entre os motivos que originaram a escalada da violência, justificando a formação de grupos armados particulares, onde ferozes jagunços garantiam a segurança dos seus patrões.

“Lampião nasceu há muitos anos, em todos os estados do nordeste”, conforme cita Graciliano Ramos no seu livro Viventes das Alagoas (1962). Ser cangaceiro era o grito de revolta dos que não aceitavam a opressão e injustiça. Desse cotidiano participaram outros personagens que muitas vezes faziam jogo duplo, a depender de interesses pessoais. Volantes, grupos formados por soldados (chamados de macacos pelos cangaceiros) e cachimbos (civis contratados pelo estado), que praticavam todo o tipo de violação contra a população dos povoados e grotões, sendo tão temidos quanto os bandoleiros. Coiteiros (moradores da zona de conflito, que forçados ou não, auxiliavam os bandidos com suprimentos e esconderijo) enfim uma rede de omissão, medo e cumplicidade que permitiu a longa duração do reinado lampiônico.

Mesmo passadas tantas décadas dos combates encarniçados e da morte do seu líder maior, este triste enredo ainda desperta paixões. O cangaço é uma epopeia repleta de contradições com relação a comportamento, datas e acontecimentos. A mitificação do general da caatinga é responsável pela aura que o cerca, imagem de herói e bandido, que povoa o imaginário popular, promovendo debates, movimentando um circulo gerador de divisas através de manifestações artísticas e culturais, teses acadêmicas, artigos e investigações sociológicas.

Essa condição permite afirmar que o rei do cangaço teve, na realidade, três vidas distintas: 1) o homem comum, vaqueiro, almocreve e coureiro; 2) O facínora amado e odiado; 3) o personagem imorredouro, eternizado em cordéis, filmes, literatura, história em quadrinhos, telenovelas, artes plásticas e folguedos populares.

Xilogravura de Nivaldo Oliveira compõe exposição do MHS
Em solo sergipano, os grupos de famigerados com seu chefe à frente, adentram pela primeira vez no dia 26 de fevereiro de 1929. A cidade de Carira foi escolhida para a indesejável visita dos fugitivos das volantes baianas. Dessa empreitada, conforme alguns relatos participaram apenas sete feras sedentas de tudo, o que já era suficiente para aterrorizar qualquer povoação, e ali se utilizou mais uma vez a tática do bom visitante, amigo, cordial e respeitoso, que não pretendia cometer atos violentos, pagando por tudo que precisava, e promovendo festas.

As estripulias em nossas terras gradativamente tornaram-se rotineiras. O rastro do mal logo se fez notar, trazendo ao pacato sergipano a dor da humilhação, as lágrimas pelos entes queridos ultrajados em sua honra ou mortos, as chantagens e extorsões. Como sempre acontecia, uma rede de colaboradores logo foi arquitetada, garantindo uma relativa segurança à cabroeira. Curiosamente, conforme relatos, o estado de Sergipe foi o que mais contribuiu com elementos para os grupos de meliantes, através do município de Poço Redondo.

No livro A misteriosa vida de Lampião, de autoria do cearense Cincinato Ferreira Neto, à página 158, encontra-se alusão ao nome de Eronildes de Carvalho, futuro interventor de Sergipe, e seu pai, Sr. Antônio Caixeiro, como um dos maiores protetores de Virgulino em nossas terras, fato este que é contestado enfaticamente pelos familiares dos citados.

Nossa Senhora da Glória, Pinhão, Frei Paulo, Alagadiço, Gararú, Aquidabã, Saco da Ribeira (Ribeirópolis), Monte Alegre, Canindé e Capela, onde a célebre chegada do malfazejo é contada até hoje, foram cidades testemunhas da aventura cangaceira. E muitos ainda recordam desse tempo sinistro. O nome de Zé Baiano, com seu ferro em brasa, que deixou marcas indeléveis no corpo de algumas mulheres ainda causa repulsa na imagem evocada.

Lampião foi senhor absoluto do seu tempo. Enquanto uns o consideravam um facínora impiedoso e sanguinário, capaz das piores atrocidades, outros lhe atribuíam qualidades, tais como, caridoso, sábio, bondoso, justo, educado, refinado, artista etc. Porém, historiadores e pesquisadores respeitados pela seriedade de seus trabalhos, são unanimes quando reconhecem no capitão a astúcia de um guerrilheiro, o tino estratégico e inteligência de um militar experimentado. Implacável quando se tratava de vingança e autoafirmação. Benevolente quando precisava de proteção, exercia liderança absoluta sobre seus comandados, o que lhe permitiu sobreviver, lutando sempre em desvantagem, sendo vencido apenas pela traição.

A derrota, mais cedo ou mais tarde haveria de chegar, e em Angicos se escreveu a última página dessa dolorosa saga brasileira. Dali escaparam alguns, que ajudaram a perpetuar a lenda. Corisco, alcunhado de “Diabo Louro”, ausente no combate final, responsabilizou-se pelo funesto epílogo, promovendo como vingança mais mortes brutais pela região. Consta que a morte de Lampião em 28 de julho de 1938 não significou o fim do cangaço, a esperança de sua continuidade findou-se com Corisco no dia 25 de maio de 1940.


Corisco, o Diabo Louro em forma de cangaceiro


*Carlos Brás é pesquisador e acadêmico de Museologia da Universidade Federal de Sergipe, estagiário do Museu Histórico de Sergipe/SECULT. E-mail: carlos_braz@globo.com


BIBLIOGRAFIA CONSULTADA
MACIEL, Frederico Bezerra. Lampião, seu tempo e seu reinado. 2ª edição. Ed. Vozes. Petrópolis, 1982. (volumes IV e VI)
FERREIRA NETO, Cincinato. A misteriosa vida de Lampião. Fortaleza: Premius, 2008.
RAMOS, Graciliano. Viventes das Alagoas. 8ª edição. Rio de Janeiro: Record, 1962.


Cartaz da exposição do MHS