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sexta-feira, 21 de setembro de 2012

A FUNÇÃO SOCIAL DOS MUSEUS



Carlos Braz*


No período de 24 a 30 de setembro acontece em todas as unidades museais do Brasil, cadastradas no Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM), a VI Primavera dos Museus, evento cujo tema central será a função social desses espaços, presentes em quase todos os recantos do país. Foi-se o tempo em que os museus eram palácios iluminados para iluminados, restritos à elite detentora do poder e do conhecimento, distantes das comunidades em seu entorno, desatentos aos seus anseios e necessidades, guardião de objetos apenas úteis para contemplação de poucos. O movimento intitulado Nova Museologia, que teve início em meados da década de 70 do século passado, direcionou as casas de memória para um novo patamar, democratizando-as, e levando-as a atuar como ferramenta inclusiva de grupos desassistidos socialmente, com acervos potencializados como fonte de transmissão de conhecimento e evolução cultural. Quarenta anos passaram-se desde a realização da Mesa Redonda de Santiago do Chile, patrocinada pelo ICOM, Conselho Internacional de Museus, em Maio de 1972, que deliberou que o

“museu é uma instituição a serviço da sociedade e seu desenvolvimento, da qual é parte integrante e que possui neles mesmos os elementos que lhe permitem participar na formação da consciência para o engajamento dessas comunidades na ação, situando suas atividades em um quadro histórico que permita esclarecer os problemas atuais, isto é, ligando o passado ao presente; engajando-se nas mudanças de estrutura em curso e provocando outras mudanças no interior de suas respectivas realidades nacionais”.

Uma lenta, porém visível revolução entrava em curso. Surgiram os museus globais, alterando o dia de áreas antes degradadas, verdadeiros espetáculos arquitetônicos onde exposições de arte, com uma nova dimensão, ganharam a mídia sendo notícia universal, ao tempo em que os espaços tradicionais de memória, com nova dinâmica e antenados aos novos tempos, contabilizavam um aumento expressivo no seu número de visitantes, e cursos técnicos e superiores de Museologia começaram a ser criados em países sul-americanos. 

Metas desafiadoras foram traçadas desde então, em face de uma conturbada cena político-social na América Latina, palco constante de liberdades individuais suprimidas e reivindicações de minorias. As sementes lançadas ao vento em terras chilenas, naturalmente, não germinaram a contento, com muito ainda a ser 
executado.

A diretriz N. 10 do I Encontro Ibero-americano de Museus, realizado em Junho de 2007 na cidade de Salvador-BA, ratificou a necessidade de

“compreender o processo museológico como exercício de leitura do mundo que possibilita aos sujeitos sociais a capacidade de interpretar e transformar a realidade para a construção de uma cidadania democrática e cultural, propiciando a participação ativa da comunidade no desenho das políticas museais”.

Assim, compreendemos que em grande parte do continente latino americano o museu como espaço de convivência sócio cultural é um sonho ainda a ser realizado.

No Brasil, a cena museológica cristaliza-se nas páginas da publicação Museus em Números, publicada pelo Ministério da Cultura no ano de 2011, cujo diagnóstico permite entrever as disparidades existentes, onde as instituições do sudeste sobressaem-se em termos de gestão voltada para ações sociais.

No campo doméstico, Sergipe vive hoje um momento de expansão com o surgimento de novos espaços de cultura e memória. Em Aracaju, no ano de 2010 cria-se o Palácio Museu Olímpio Campos e em seguida o Museu da Gente Sergipana, repleto de atraentes tecnologias que contribuem positivamente para uma melhor compreensão, por parte da sociedade, da finalidade dos museus. No interior do estado nasce o Museu de Itabaiana, ao lado do Museu do Cangaço, no município de Frei Paulo, povoado Alagadiço iniciativas inéditas naquela região. Museu Histórico de Sergipe e o Museu de Arte Sacra, ambos em São Cristovão, e o Museu Afro Brasileiro de Sergipe, no município de Laranjeiras, funcionam plenamente há vários anos.

Em breve contaremos com o Museu da Policia Militar, em São Cristovão, e em Aracaju teremos o Museu do Mangue, a Casa de Cultura Jenner Augusto, e o espaço Zé Peixe, que, juntando-se a outros já existentes, completam um elenco considerável em número de instituições.

Dez museus do nosso Estado responderam ao questionário enviado para a formação do cadastro do IBRAM, um número sugestivo, levando-se em conta sermos o menor estado da federação. Destes, 60% afirmam que realizam ações educativas, sem dúvida um excelente percentual, que, todavia, não causa mudanças perceptíveis no meio social. Apenas um declarou possuir orçamento próprio e nenhum conta com a parceria de Associações de Amigos do Museu. 

Ao mesmo tempo, o mercado cultural/museal começa a receber os bacharéis em Museologia formados na Universidade Federal de Sergipe (UFS), profissionais competentes, ansiosos para mostrarem seus conhecimentos, aptos a participarem ativamente na construção da estrutura necessária para transformar nossos museus em entidades que efetivamente promovam significativas transformações sociais, através dos seus projetos.

A função social do museu em Sergipe ainda não é perceptível para muitos, dependendo de várias outras ações para sua efetivação. Uma análise objetiva deixa entrever que é imprescindível a presença de museólogos e equipes multidisciplinares a serviço das instituições, que apoiadas por políticas público-privadas, transformem os museus em espaços socialmente importantes, agentes de mudança social e desenvolvimento. A VI Primavera dos Museus torna-se, portanto, uma oportunidade impar para se refletir sobre o assunto.

* Carlos Braz é acadêmico do Curso de Museologia na Universidade Federal de Sergipe. Email: carlos_braz@globo.com


FONTES:
FORUM NACIONAL DE MUSEUS (2008). Museus como agentes de mudança social e desenvolvimento: relatório. Brasília: Minc/IBRAM, 2010.
IBRAM. Museu em Números 2011. Brasília, 2011. (Vol. 2)
NASCIMENTO JR, José do; CHAGAS, Mario de Souza (Orgs.) IBERMUSEUS 1 - Panoramas museológicos da Íbero América. 2ª. edição. Brasília, 2010.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

O cangaço em Sergipe

Maria Bonita e Lampião, escultura de Felix Santos, compõe exposição no MHS.

 Carlos Brás*


O pequenino Sergipe, entre todos os estados pelos quais o flagelo do cangaço deixou suas marcas, tem lugar de destaque. Entramos definitivamente para a história do banditismo nacional, de forma excepcional e definitiva, no dia 28 de Julho de 1938, quando na gruta de Angicos, localizada no município de Poço Redondo, o tenente alagoano João Bezerra e sua volante, liquidou Virgulino Ferreira da Silva, o afamado Lampião, e parte de seus seguidores, interrompendo um reinado de quase 20 anos.

O fenômeno social cangaço teve como pano de fundo o sofrido sertão nordestino com sua temível caatinga, ambiente inóspito, pouco povoado, onde só os fortes sobrevivem. O Raso da Catarina, em território baiano, sintetiza toda a insalubridade e aridez dessa região do Brasil. Tempos medonhos aqueles, onde a presença do estado quase não se fazia notar com o domínio socioeconômico exercido por poderosos coronéis, proprietários de imensos latifúndios, soberanos da terra e da gente, da vida e da morte. A miséria e os constantes conflitos políticos e familiares estão entre os motivos que originaram a escalada da violência, justificando a formação de grupos armados particulares, onde ferozes jagunços garantiam a segurança dos seus patrões.

“Lampião nasceu há muitos anos, em todos os estados do nordeste”, conforme cita Graciliano Ramos no seu livro Viventes das Alagoas (1962). Ser cangaceiro era o grito de revolta dos que não aceitavam a opressão e injustiça. Desse cotidiano participaram outros personagens que muitas vezes faziam jogo duplo, a depender de interesses pessoais. Volantes, grupos formados por soldados (chamados de macacos pelos cangaceiros) e cachimbos (civis contratados pelo estado), que praticavam todo o tipo de violação contra a população dos povoados e grotões, sendo tão temidos quanto os bandoleiros. Coiteiros (moradores da zona de conflito, que forçados ou não, auxiliavam os bandidos com suprimentos e esconderijo) enfim uma rede de omissão, medo e cumplicidade que permitiu a longa duração do reinado lampiônico.

Mesmo passadas tantas décadas dos combates encarniçados e da morte do seu líder maior, este triste enredo ainda desperta paixões. O cangaço é uma epopeia repleta de contradições com relação a comportamento, datas e acontecimentos. A mitificação do general da caatinga é responsável pela aura que o cerca, imagem de herói e bandido, que povoa o imaginário popular, promovendo debates, movimentando um circulo gerador de divisas através de manifestações artísticas e culturais, teses acadêmicas, artigos e investigações sociológicas.

Essa condição permite afirmar que o rei do cangaço teve, na realidade, três vidas distintas: 1) o homem comum, vaqueiro, almocreve e coureiro; 2) O facínora amado e odiado; 3) o personagem imorredouro, eternizado em cordéis, filmes, literatura, história em quadrinhos, telenovelas, artes plásticas e folguedos populares.

Xilogravura de Nivaldo Oliveira compõe exposição do MHS
Em solo sergipano, os grupos de famigerados com seu chefe à frente, adentram pela primeira vez no dia 26 de fevereiro de 1929. A cidade de Carira foi escolhida para a indesejável visita dos fugitivos das volantes baianas. Dessa empreitada, conforme alguns relatos participaram apenas sete feras sedentas de tudo, o que já era suficiente para aterrorizar qualquer povoação, e ali se utilizou mais uma vez a tática do bom visitante, amigo, cordial e respeitoso, que não pretendia cometer atos violentos, pagando por tudo que precisava, e promovendo festas.

As estripulias em nossas terras gradativamente tornaram-se rotineiras. O rastro do mal logo se fez notar, trazendo ao pacato sergipano a dor da humilhação, as lágrimas pelos entes queridos ultrajados em sua honra ou mortos, as chantagens e extorsões. Como sempre acontecia, uma rede de colaboradores logo foi arquitetada, garantindo uma relativa segurança à cabroeira. Curiosamente, conforme relatos, o estado de Sergipe foi o que mais contribuiu com elementos para os grupos de meliantes, através do município de Poço Redondo.

No livro A misteriosa vida de Lampião, de autoria do cearense Cincinato Ferreira Neto, à página 158, encontra-se alusão ao nome de Eronildes de Carvalho, futuro interventor de Sergipe, e seu pai, Sr. Antônio Caixeiro, como um dos maiores protetores de Virgulino em nossas terras, fato este que é contestado enfaticamente pelos familiares dos citados.

Nossa Senhora da Glória, Pinhão, Frei Paulo, Alagadiço, Gararú, Aquidabã, Saco da Ribeira (Ribeirópolis), Monte Alegre, Canindé e Capela, onde a célebre chegada do malfazejo é contada até hoje, foram cidades testemunhas da aventura cangaceira. E muitos ainda recordam desse tempo sinistro. O nome de Zé Baiano, com seu ferro em brasa, que deixou marcas indeléveis no corpo de algumas mulheres ainda causa repulsa na imagem evocada.

Lampião foi senhor absoluto do seu tempo. Enquanto uns o consideravam um facínora impiedoso e sanguinário, capaz das piores atrocidades, outros lhe atribuíam qualidades, tais como, caridoso, sábio, bondoso, justo, educado, refinado, artista etc. Porém, historiadores e pesquisadores respeitados pela seriedade de seus trabalhos, são unanimes quando reconhecem no capitão a astúcia de um guerrilheiro, o tino estratégico e inteligência de um militar experimentado. Implacável quando se tratava de vingança e autoafirmação. Benevolente quando precisava de proteção, exercia liderança absoluta sobre seus comandados, o que lhe permitiu sobreviver, lutando sempre em desvantagem, sendo vencido apenas pela traição.

A derrota, mais cedo ou mais tarde haveria de chegar, e em Angicos se escreveu a última página dessa dolorosa saga brasileira. Dali escaparam alguns, que ajudaram a perpetuar a lenda. Corisco, alcunhado de “Diabo Louro”, ausente no combate final, responsabilizou-se pelo funesto epílogo, promovendo como vingança mais mortes brutais pela região. Consta que a morte de Lampião em 28 de julho de 1938 não significou o fim do cangaço, a esperança de sua continuidade findou-se com Corisco no dia 25 de maio de 1940.


Corisco, o Diabo Louro em forma de cangaceiro


*Carlos Brás é pesquisador e acadêmico de Museologia da Universidade Federal de Sergipe, estagiário do Museu Histórico de Sergipe/SECULT. E-mail: carlos_braz@globo.com


BIBLIOGRAFIA CONSULTADA
MACIEL, Frederico Bezerra. Lampião, seu tempo e seu reinado. 2ª edição. Ed. Vozes. Petrópolis, 1982. (volumes IV e VI)
FERREIRA NETO, Cincinato. A misteriosa vida de Lampião. Fortaleza: Premius, 2008.
RAMOS, Graciliano. Viventes das Alagoas. 8ª edição. Rio de Janeiro: Record, 1962.


Cartaz da exposição do MHS