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segunda-feira, 8 de outubro de 2012

MHS dedica Roda de Leitura a Jorge Amado

Maria Gloria destacou poesia que Jorge Amado dedicou a Jenner Augusto

Uma roda de Leitura dedicada a Jorge Amado marcou a programação VI Primavera dos Museus, na tarde de 28 de setembro, no Museu Histórico de Sergipe. Artistas, acadêmicos e amigos do escritor homenageado celebraram com leituras e lembranças o centenário de seu nascimento (1912/2012).

Thiago Fragata, diretor do MHS, coordenou o evento. Ele lembrou a relação de Jorge Amado com a cidade de São Cristóvão, com o seu patrimônio e sua gente. Os contadores Rose Barbosa, Eliene Marcelo, Carlos Augusto Bráz, Maria Glória, Kleckstane Farias revezaram-se na leitura de obras memoráveis de Jorge Amado: Tenda dos Milagres, Capitães da Areia, Cacau, País do Carnaval, Suor.

Confira seleta de textos e imagens.

TRECHOS SELECIONADOS


CAPITÃES DA AREIA [VOLTA SECA]

Mas quem vai na rabada de um trem é Volta Seca. Uma tarde a polícia o pegou quando o mulato despojava uma carteira. Volta Seca tinha então dezesseis anos. Foi levado para a polícia, o surraram porque ele xingava todos, soldados e delegados com aquele desprezo que o sertanejo tem pela polícia. Ele não soltou um grito enquanto apanhou. Oito dias depois o puseram na rua, e ele saiu quase alegre, porque agora tinha uma missão na vida: matar soldados da polícia.

Passou uns dias no trapiche, o rosto sombrio, afogado em pensamentos. O sertão o chamava, a luta do cangaço o chamava. Um dia disse a Pedro Bala:

- Vou passar uns tempos com os Maloqueiros em Aracaju. Os Índios Maloqueiros eram os Capitães da Areia (...) Nunca fora um menino da cidade igual a Pedro Bala, a Boa-Vida, ao Gato. Fora sempre um dizendo meu padrim, imitando as vozes dos animais sertanejos. Antigamente ele e sua mãe tinham um pedaço de terra. Ela era comadre de Lampião, os coronéis respeitavam sua terra. Mas quando Lampião se internou pelo sertão de Pernambuco os coronéis ficaram com a terra da mãe da Volta Seca. Ela desceu para a cidade para pedir justiça. Morreu no caminho, Volta Seca continuou a caminhada com seu rosto sombrio. Muita coisa aprendeu na cidade, entre os Capitães da Areia. Aprendeu que não era só no sertão que os homens ricos eram ruins para os pobres. Na cidade, também. Aprendeu que as crianças pobres são desgraçadas em toda parte, que os ricos perseguem e mandam em toda parte. Sorriu por vezes, mas nunca deixou de odiar. 

Leitura de Thiago Fragata


CACAU [SÃO CRISTÓVÃO]

A cidade subia pelas ladeiras e parava lá em cima, bem junto ao imenso convento. Olhando do alto, via-se a fábrica, ao pé do monte pelo qual se enroscava a cidade como uma cobra de uma só cabeça inúmeros corpos. Talvez não fosse bela a velha São Cristóvão, ex-capital do Estado, mas era pitoresca, pejada de casas coloniais, um silêncio de fim de mundo, as igrejas e os conventos a abafarem a alegria das quinhentas operárias que fiavam na fábrica de tecidos.

Acho que meu pai montara a fábrica em São Cristóvão devido à decadência da cidade, à sua paz e ao seu sossego, triste cidade parada que devia apaixonar os seus olhos e o seu espírito cansado de paisagens e de aventuras.

Nós morávamos então num enorme e secular sobrado, ex-morada particular dos governadores, uma pesadíssima porta de entrada, as janelas irregulares, todo pintado de vermelho, grandes quartos, nos quais eu e Elza nos perdíamos durante o dia brincando de picula (...) Ao lado da nossa casa ficava o ex-palácio do governo, quase a cair, transformado em quartel onde alguns soldados habitavam, sujos e preguiçosos. Em frente, o orfanato, seis freiras e oitenta meninas, filhas de operários e pais ignorados. (...) As casas, todas antiquadas e atijoladas, estendiam-se pela praça do convento e equilibravam-se pelas ladeiras. 


Leitura de Carlos Augusto Bráz.



Eliene Marcelo leu trecho de País do Carnaval

PAÍS DO CARNAVAL [Violência contra mulher]

Paulo Rigger andava na rua, ao léu. Sentia-se um estranho na sua Pátria. Achava tudo diferente... Se aquilo acontecia no Rio, que seria na Bahia, para onde iria residir em companhia da sua velha mãe?... Poderia, conseguiria viver? E tinha uma grande nostalgia de Paris...

Teria que viver burguêsmente... Não teria mais camaradas intelectuais... Ficaria com o espírito obtuso... Talvez se casasse... Talvez fosse mesmo morar na fazenda... Que fim para ele, degenerado, viciado, doente da Civilização... Enfim...

Paulo Rigger parou em frente de uma casa de discos. Uma marcha bem cantada enchia o espaço com uma música estranha, nostálgica, cheia de um sentimento que Paulo não compreendia. A Marcha rugia:

Essa mulher há muito tempo me provoca...
Dá nela...
Dá nela...

- Isso deve ser a música brasileira – pensou Rigger. A grande música do Brasil. E ficou a escutar enlevado pela barbárie do ritmo. A alma do povo devia estar ali... E como era diferente da sua... Ele não bateria nunca numa mulher. A música bradava:
Dá nela...
Dá nela... 

Leitura de Eliene Marcelo.


POESIA DE JORGE AMADO DIANTE DOS QUADROS DE JENNER AUGUSTO

Para fazer um quadro assim tão belo
A receita, senhoras e senhores, vos ensino:

Alvas areias altas dunas casario antigo
O pássaro sofrê os retorcidos santos
A humildade, o orgulho, a dura consciência
O mistério das flores, do caule, da corola
O boi, o porco, a cabra, o vira-lata, o galo, a madrugada
O mar dos alagados, a fome milenar
Nordestina universal, a rútila esperança
A meninice, a tia, a noite sergipana
A brisa da Bahia, o patriarca, a puta
Fraternal, suave, doce, triste, alegre, maternal
A música do cego, o violão as cores desse céu
Dessa montanha, dessa pedra, desse chão
Desse mundo e dos olhos de Luíza
O riso dos meninos
A ausência dos meninos
O órfão indispensável, recolhido sofrimento
Em riso rebentado da infância oferecida.

Também é necessário, senhoras e senhores, ter talento
Coração sangrando, ser solidário, poço de bondade
Uns olhos fundos apertados, um choro não chorado
Ser cangaceiro e santo, ter sofrido e amado.
Como vêdes, senhoras e senhores, é muito simples
Pintar um quadro tão belo. Só é preciso
Ter vivido.

Leitura de Maria Gloria.

Kleckstane Farias compartilhou trecho de Suor

SUOR [PALHAÇO, lembranças...]

Não. Não foi um desses grandes circos que percorrem as capitais do mundo com jaulas, artistas internacionais, palhaços que falam várias línguas. Circos que possuem navios próprios e animais raros, girafas e hipopótamos. Nada disso. Fora um pequeno circo de feira cuja maior atração consistia num urso velho que se embriagava com cerveja. Circo que na Bahia se armava na Calçada, longe do centro da cidade. É verdade que se chamava de Grande Circo Europeu. Não passava, porém de um circozinho brasileiro, que percorria as cidades do interior, levando prospectos amarelos, que acusavam ruidosos sucessos no Rio de Janeiro, em Porto Alegre, em Maceió e em Oeiras. Muitos dos assistentes pensavam que Oeiras era uma grande cidade da Europa.

No entanto, há dez anos que Laudelino vivia com saudades do circo. Desde aquele dia que, em Juazeiro, a companhia se dissolveu vendendo o urso e o pano para fazer o dinheiro das passagens, Laudelino entristeceu. Há dez anos, também, que morava no prédio. No seu quarto viam-se fotografias velhas, uma sujas, outras rotas, nas quais ele aparecia irreconhecível, vestido com uma bombacha verde, a cara caiada de branco, desenhos na testa. Naquela época ele era o palhaço Jujuba, encanto da criançada e dos habitantes das cidades perdidas no interior. Dizia graças, levava cambalhotas, arrastando sempre aquele bengalão que estava dependurado em frente à sua cama. Porém, o que mais lhe deixara saudades foram as representações. Tinha uma queda por aquilo e fazia invariavelmente o primeiro papel masculino. Quantos sucessos... Lembrava dos cartazes... Mal ele entrava em cena as palmas soavam. Na “Tomada da Bastilha” fizera a assistência em peso chorar emocionada. Era seu grande sucesso. Quando agarrava o conde pelo pescoço e gritava: Traidor! A plateia se levantava. Ia tão longe tudo isso... dez anos já... metido no prédio restava-lhe somente a alegria de contar as glórias passadas. E, desde a noite que recitou um monólogo numa festa que seu Fernandes ofereceu passou a ser apontado a dedo como o “artista”. As mulheres diziam:

- no quarto andar mora um artista. Seu Laudelino... Já trabalhou num circo.

E Laudelino, depois de contar aos homens no pé da escada as suas glórias, trancava-se no quarto, vestia a bombacha verde e declamava, repetia piadas velhíssimas, revia as plateias das cidadezinhas visitadas. Quando, de repente, voltava à realidade do quarto malcheiroso, chorava, chorava como chorava no dia em que a população de Oeiras o carregou em triunfo.

Leitura realizada por Kleckstane Farias.


Rose Barbosa citou Tenda dos Milagres


TENDA DOS MILAGRES [Pelourinho]

No amplo território do Pelourinho, homens e mulheres ensinam e estudam. Universidade vasta e vária se estende e ramifica no Tabuão, nas Portas do Carmo e em Santo Antônio Além-do-Carmo, na Baixa dos Sapateiros e nos mercados, no Maciel, na Lapinha, no Largo da Sé, no Tororó, na Barroquinha, nas Sete Portas e no Rio Vermelho, em todas as partes onde homens e mulheres trabalham os metais e as madeiras, utilizam ervas e raízes, misturam ritmos, passos e sangue; na mistura criaram uma cor e um som, imagem nova, original.

Aqui ressoam os atabaques, os berimbaus, os ganzás, os agogôs, os pandeiros, os adufes, os caxixis, as cabaças: Nesse território popular nasceram a música e a dança.

Ao lado da Igreja do Rosário dos Pretos, num primeiro andar com cinco janelas sobre o Largo do Pelourinho, mestre Budião instalara sua Escola de Capoeira Angola: os alunos vinham pelo fim da tarde e à noitinha, cansados do trabalho do dia, mas dispostos ao brinquedo. Os berimbaus comandam os golpes, variados e terríveis: meia-lua, rasteira, cabeçada, rabo-de-arraia, au de cambaleão, açoite, bananeira, galopante, martelo, escorão, chibata armada, cutilada, boca de siri, boca de calça, chapa de frente, chapa-de-costas e chapa-pé. Os rapazes jogam ao som dos berimbaus, na louca geografia dos toques: São Bento Grande, São Bento Pequeno, Santa Maria, Cavalaria, Amazonas, Angola, Angola Dobrada, Angola Pequena, Apanhe a Laranja no Chão Tico Tico, Iúna, Samongo e Cinco Salomão – e tem mais, óxente!, ora se tem: aqui nesse território a capoeira angola se enriqueceu e transformou: sem deixar de ser luta, foi balé.

A agilidade do Mestre Budião é inaudita: haverá galo tão destro, leve e imprevisto? Salta para os lados e para trás, jamais adversário algum conseguira tocá-lo. No recinto da Escola demonstraram valor e competência, todo o seu saber, os grandes mestres: Querido de Deus, Saveirista, Chico da Barra, Antônio Maré, Zacaria Grande, Piroca Peixoto, Sete Mortes, Bigode de Sêda, Pacífico do Rio Vermelho, Bom Cabelo, Vicente Pastinha, Doze Homens, Tiburcinho de Jaguaribe, Chico Me Dá, Nô da Empresa, e Barroquinha:

“Menino quem foi se mestre? Meu mestre foi Barroquinha Barba ele não tinha Metia o facão na policia e pairando tratava bem.”

Leitura realizada por Rose Barbosa.



BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

AMADO, Jorge. Capitães da Areia. 86ª Ed. Rio de Janeiro: Record, 1996.
AMADO, Jorge. O País do Carnaval - Cacau - Suor. São Paulo: Martins, SD.
AMADO, Jorge. Tenda dos Milagres.  43. ed. Rio de Janeiro: Record, 2001.
FURRER, Bruno. Jenner. São Paulo: Gráficos Brunner Ltda, 1980.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

MHS promove atividades dentro da 6ª Primavera dos Museus

Museu Histórico de Sergipe. Foto: Marcelly (ASCOM/SECULT)

O Museu Histórico de Sergipe (MHS), unidade da Secretaria de Estado da Cultura (Secult), integra a programação da 6ª Primavera dos Museus, uma ação coordenada pelo Instituto Brasileiro de Museus (Ibram/MinC). No próximo dia 28 de setembro o MHS irá promover duas atividades que irão chamar a atenção para o tema deste ano do evento: ‘A Função Social dos Museus’.

Às 16h do dia 28, ocorrerá a Roda de Leitura ‘Musa Museus – Jorge Amado’. Na ocasião serão lidos textos do autor baiano. “Iremos escolher trechos da obra de Jorge Amado que tenham relação com Sergipe. Poucos sabem, mas o autor faz várias referências ao nosso estado em suas obras”, explica o diretor do MHS, Thiago Fragata e estudioso da obras do escritor baiano.

Fragata conta que na próxima semana irá apresentar um trabalho de pesquisa baseado no livro ‘Capitães de Areia’ durante o Colóquio Internacional 100 anos de Jorge Amado, em Ilhéus. “Nesse trabalho eu faço uma ligação de Jorge Amado com o universo do Cangaço”, destaca. Ele acrescenta que continua em cartaz no MHS a exposição ‘Cangaço: por dentro do emborná e na ponta do punhá’, que traz elementos desse movimento tão presente em Sergipe.

Logo após a Roda de Leitura do dia 28, terá início a solenidade de criação da Associação Amigos do Museu Histórico de Sergipe (ACAMHS). A entidade irá reunir representantes de entidades culturais, artistas e pesquisadores com o objetivo de dinamizar a vida cultural da cidade de São Cristóvão e promover atividades educativas para movimentar o MHS, a exemplo das Rodas de Leitura.

“Essa é a primeira entidade com esse caráter que está sendo criada em Sergipe e o objetivo é também desburocratizar o museu e aproximar a sociedade da instituição. Esse é um passo muito importante para de fato cumprirmos a função social do museu”, explica o diretor do MHS.

PRIMAVERA DOS MUSEUS

Coordenada pelo Ibram, a Primavera dos Museus tem por objetivo chamar a atenção de museus e sociedade para o debate em torno de assuntos atuais por meio de exposições, seminários, oficinas, palestras, etc. A programação da 6ª edição do evento, que acontece entre os dias 24 e 30 de setembro, conta com 2.400 atividades que serão realizados em cerca de 800 museus espalhados por 364 municípios brasileiros.

‘A Função Social dos Museus’, tema deste ano da Primavera dos Museus, homenageia os 40 anos da Declaração da Mesa Redonda de Santiago do Chile, realizada em 1972.