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sexta-feira, 13 de junho de 2014

Futebol foi tema de roda de leitura

Seleta de textos da roda de leitura
Na sexta (6/6) aconteceu na Biblioteca Municipal Livro Aberto, no bairro Eduardo Gomes, do município de São Cristóvão, a Roda de Leitura "Futebol: ninguém segura este país". A itinerância do projeto era um sonho antigo dos abnegados contadores que realizam a ação educativa desde abril de 2011. De início, o coordenador Thiago Fragata, diretor do Museu Histórico de Sergipe, falou das pesquisas para reunião dos textos, do esforço dos parceiros para concretização do projeto e do compromisso com a Educação por parte dos envolvidos. Esclareceu que o evento não objetiva discutir técnica e prática do futebol, nem exaltar a Copa do Mundo e a seleção brasileira, apenas mostrar que nas primeiras décadas do século XX sua estreia dividiu a opinião da intelectualidade brasileira. Também, São Cristóvão como lugar da experiência esportiva.



Rafaela Pereira fez leitura de uma obra de Graciliano Ramos
Em seguida os contadores revesaram-se na leitura dos textos. A diretora da Biblioteca Municipal Livro Aberto, Rafaela Pereira, recepcionou o público com leitura de uma crônica de Graciliano Ramos, de 1921. Nela o autor de Vidas Secas, num tom irônico e pessimista explica porque no Brasil "o esporte alienígena não iria vingar".



FUTEBOL 
Graciliano Ramos (1921)

Pensa-se em introduzir o futebol, nesta terra. É uma lembrança que, certamente, será bem recebida pelo público, que, de ordinário, adora as novidades. Vai ser, por algum tempo, a mania, a maluqueira, a ideia fixa de muita gente. Com exceção talvez de um ou outro tísico, completamente impossibilitado de aplicar o mais insignificante pontapé a uma bola de borracha, vai haver por aí uma excitação, um furor dos demônios, um entusiasmo de fogo de palha capaz de durar bem um mês. 

Pois quê! A cultura física é coisa que está entre nós inteiramente descurada. Temos esportes, alguns propriamente nossos, batizados patrioticamente com bons nomes em língua de preto, de cunho regional, mas por desgraça estão abandonados pela débil mocidade de hoje. Além da inócua brincadeira de jogar sapatadas e de alguns cascudos e safanões sem valor que, de boa vontade, permutamos uns com os outros, quando somos crianças, não temos nenhum exercício. Somos, em geral, franzinos, mirrados, fraquinhos, de uma pobreza de músculos lastimável. 

A parte de nosso organismo que mais se desenvolve é a orelha, graças aos puxões maternos, mas não está provado que isto seja um desenvolvimento de utilidade. Para que serve ser a gente orelhuda? O burro também possui consideráveis apêndices auriculares, o que não impede que o considerem, injustamente, o mais estúpido dos bichos.(...) Fisicamente falando, somos uma verdadeira miséria. Moles, bambos, murchos, tristes - uma lástima! Pálpebras caídas, beiços caídos, braços caídos, um caimento generalizado que faz de nós um ser desengonçado, bisonho, indolente, com ar de quem repete, desenxabido e encolhido, a frase pulha que se tornou popular: "Me deixa..." Precisamos fortalecer a carne, que a inação tornou flácida, os nervos, que excitantes estragaram, os ossos que o mercúrio escangalhou. 

Consolidar o cérebro é bom, embora isto seja um órgão a que, de ordinário, não temos necessidade de recorrer. Consolidar o muque é ótimo. Convencer um adversário com argumentos de substância não é mau. Poder convencê-lo com um grosso punho cerrado diante do nariz, cabeludo e ameaçador, é magnífico. (...)Para chegar ao soberbo resultado de transformar a banha em fibra, aí vem o futebol. Mas por que o futebol? 

Não seria, porventura, melhor exercitar-se a mocidade em jogos nacionais, sem mescla de estrangeirismo, o murro, o cacete, a faca de ponta, por exemplo? Não é que me repugne a introdução de coisas exóticas entre nós. Mas gosto de indagar se elas serão assimiláveis ou não. No caso afirmativo, seja muito bem vinda a instituição alheia, fecundemo-la, arranjemos nela um filho híbrido que possa viver cá em casa. De outro modo, resignemo-nos às broncas tradições dos sertanejos e dos matutos. Ora, parece-nos que o futebol não se adapta a estas boas paragens do cangaço. É roupa de empréstimo, que não nos serve. 

Para que um costume intruso possa estabelecer-se definitivamente em um país é necessário, não só que se harmonize com a índole do povo que o vai receber, mas que o lugar a ocupar não esteja tomado por outro mais antigo, de cunho indígena. É preciso, pois, que vá preencher uma lacuna, como diz o chavão. 

O do futebol não preenche coisa nenhuma, pois já temos a muito conhecida bola de palha de milho, que nossos amadores mambembes jogam com uma perícia que deixaria o mais experimentado sportman britânico de queixo caído. (...)Temos esportes em quantidade. Para que metermos o bedelho em coisas estrangeiras? O futebol não pega, tenham a certeza. Não vale o argumento de que ele tem ganho terreno nas capitais de importância. Não confundamos.(...) Reabilitem os esportes regionais que aí estão abandonados: o porrete, o cachação, a queda de braço, a corrida a pé, tão útil a um cidadão que se dedica ao arriscado ofício de furtar galinhas, a pega de bois, o salto, a cavalhada e, melhor que tudo, o cambapé, a rasteira. 

A rasteira! Este, sim, é o esporte nacional por excelência! (…) Cultivem a rasteira, amigos! 

E se algum de vocês tiver vocação para a política, então sim, é a certeza plena de vencer com auxílio dela. É aí que ela culmina. Não há político que a não pratique. Desde S. Exa. o senhor presidente da República até o mais pançudo e beócio coronel da roça, desses que usam sapatos de trança, bochechas moles e espadagão da Guarda Nacional, todos os salvadores da pátria têm a habilidade de arrastar o pé no momento oportuno.Muito útil, sim senhor. Dediquem-se à rasteira, rapazes. 



Maria José fez leitura de uma obra de Monteiro Lobato
A contadora Maria José, acadêmica de Museologia/UFS, realizou leitura de uma carta de Monteiro Lobato, de 1905, onde ele expõe as virtudes que o novo esporte oferece aos praticantes.



Monteiro Lobato (1882/1948)

SOBRE FUTEBOL

Monteiro Lobato (1905) 

Não se pode dizer que o futebol seja o fator da formidável raça anglo-saxônia, porque ele é um filho dela. Mas não errará quem afirmar ser esse um bom filho um dos conservadores máximos da energia imensa da sua loira mãe. E na verdade o futebol é o estimulante mais poderoso que entre os fortes estimulantes encontra o sangue anglo-saxão. 

É por isso que se tornou ele o esporte nacional da Inglaterra e da terra Ianque. Nos colégios, no Exército, na Marinha, em toda e a toda hora joga-se o futebol, religiosamente, como quem cumpre um dever. É um ritual, quase. Vêm daí em parte, as eminentíssimas superioridades do inglês. Porque o futebol dá em primeiro lugar uma grande força física. 

Dá resistência, dá tática. Dá agilidade. Dá calma, sobretudo nas emergências mais escabrosas. Dá golpe de vista pronto, seguro e firme. Dá energia moral, porque a energia moral é quase sempre um reflexo da energia física. Dá iniciativa. Dá confiança em si próprio. 

Dá responsabilidade. Os porquês da tantos "dás"? Dá energia muscular porque o jogo movimenta a musculatura do corpo, os músculos do pé e da perna em primeiro lugar, e os do torso e do pescoço em seguida. 

Essa energia cria resistência, é lógico, uma sendo recíproca da outra. Dá tática porque nas múltiplas fases dum ataque ou duma defesa, num dribling, inesperado, num chute falho, em qualquer das mil peripécias da luta, o espírito dos foot-ballers, pela tensão prolongada de todas as suas faculdades, acarreta o aperfeiçoamento da mais necessária e da de mais evidência, a presteza da percepção, a tática. (...) Dá calma porque sendo esta uma das qualidades indispensáveis ao jogador, pela própria natureza do jogo, os temperamentos mais exaltados vão-na adquirindo aos poucos, sob pena de eliminação do jogo. O golpe de vista certeiro… eis aí qualidade essencial para um homem subir, chegar, vencer. É ele o segredo dos grandes homens. Quem vê as cousas de relance e com justeza de percepção está apto a vencer todas as dificuldades que a vida apresenta. Saber ver justo: é o grande talismã. 

E assim mil outras faculdades morais e qualidades físicas este precioso jogo aprimora. (...) Um ditador que tomasse conta desta República e acabasse com as fábricas de bacharéis e normalistas, substituindo-os por severos teams de futebol, faria mais pelo Brasil que as dez gerações de Feijós, Zés Bonifácios e Cotegipes e demais estadistas que nos têm governado".

Roberto (direita) fez leitura de crônica de Lima Barreto

Roberto, da Biblioteca Livro Aberto, compartilhou crônica do principal opositor do esporte no Brasil: Lima Barreto. Pertinente saber que as críticas formuladas por este intelectual há um século permanecem atuais a exemplo do preconceito que inspirou sua crônica "Macaquitos", de 23/10/1920.


Lima Barreto (1881/1922)



MACAQUITOS
Lima Barreto (1920)

Um jornal ou semanário de Buenos Aires, quando uma equipe brasileira de football, de volta do Chile, onde fora disputar um campeonato internacional, por lá passou, pintou-a como macacos. A cousa passou desapercebida, devido ao atordoamento das festas do Rei Alberto [rei belga que estava em visita ao Brasil]; mas, se assim não fosse, estou certo de que haveria irritação em todos os ânimos. 

Precisamos nos convencer de que não há nenhum insulto em chamar-nos de macacos. O macaco, segundo os zoologistas, é um dos mais adiantados exemplares da série animal; e há mesmo competências que o fazem, não pai, pelo menos primo do homem. Tão digno ‘totem’ não nos pode causar vergonha. 

A França, isto é, os franceses são tratados de galos e eles não se zangam com isto; ao contrário: o galo gaulês, o chantecler, é motivo de orgulho para eles. 

Entretanto, quão longe está o galo, na escala zoológica, do macaco! Nem mamífero é! Quase todas as nações, segundo lendas e tradições, têm parentesco ou se emblemam com animais. Os russos nunca se zangaram por chamá-los de ursos brancos; e o urso não é um animal tão inteligente e ladino como o macaco. 

Vários países, como a Prússia e a Áustria, põem nas suas bandeiras águias; entretanto, a águia, desprezando a acepção pejorativa que tomou entre nós, não é lá animal muito simpático. 

A Inglaterra tem como insígnias animais o leopardo e o unicórnio. Digam-me agora os senhores: o leopardo é um animal muito digno? A Bélgica tem leões ou leão nas suas armas; entretanto, o leão é um animal sem préstimo e carniceiro. O macaco – é verdade – não tem préstimo; mas é frugívoro, inteligente e parente próximo do homem. 

Não vejo motivos para zanga, nessa história dos argentinos chamar-nos de macacos, tanto mais que, nas nossas histórias populares, nós demonstramos muita simpatia por esse endiabrado animal.


Coelho Neto (1864/1934)

Mas o grande incentivador do futebol nas primeiras décadas do século XX foi o escritor Coelho Neto. Ardoroso defensor do esporte como prática salutar das novas gerações, manteve com Lima Barreto uma grande polêmica nos jornais. Mesmo tendo perdido seu filho, Mano, em razão de uma “falta violenta” numa partida, Coelho Neto continuou sua defesa em prol do futebol. Em homenagem ao filho morto, publicou Mano, em 1924, na forma de diálogo. Thiago Fragata realizou leitura de um trecho que retrata momento em que o corpo do filho era velado próximo do estádio onde acontecia jogo entre as seleções do Brasil e Argentina: 


MANO
Coelho Neto (1924)

Longo, perduradouro vozear no estádio anunciava o início do jogo quando o sacerdote, o mesmo que o ouvira de confissão, aproximou-se para encomendá-lo a Deus. Era o sinal da partida. Uma voz sussurrou-me: “Que iam fechar o caixão”. 

Estremeci. Seria possível! Encheu-se-me o peito de tanta agonia que me senti opresso como se o coração se me houvesse petrificado. Que fazer? Último adeus ao filho, último beijo à fronte gélida, bênção derradeira. Retiraram-lhe o crucifixo do peito. (...) 

Chorávamos humildes quando trovejou no estádio clamor imenso de triunfo e o coliseu longamente atroou o estrondo das aclamações vitoriosas. 

Ouvindo aquele tronejo heróico lembramo-nos de tardes, outras, iguais àquela e parecia-nos que o nome proclamado estrepitosamente era o dele, dele que ali se fizera desde pequenino, brincando naquele campo, nele crescendo em força e garbo, nele batendo-se pelas cores, que eram o seu orgulho. 

E seria dele o nome que ouvíamos nas aclamações ovantes da multidão em delírio? Sim, era o seu nome, não saía do estádio, mas do fundo dos nossos corações porque, embora estrondosas, todas aquelas vozes de milhares de bocas não estrugiam tão alto como nos soavam intimamente os apelos doloridos da nossa imensa saudade. 

Mas de que servem lágrimas?! Paraste na mocidade. Os teus irmãos menores prosseguirão na vida e tu, que os precedias, quedarás na hora em que caíste, vendo-os passar, transpor a idade em que foste ferido, entrar pelos anos além, envelhecendo, e eles falarão de ti, o irmão mais velho, morto com pouco mais de vinte e quatro anos. E assim ficarás sempre jovem na saudade dos teus, que te perderam. 

José Lucio leu um trecho romance de José Sacramento


As duas fábricas de tecidos que funcionaram em São Cristóvão no século XX, patrocinaram times e mantinham campos nas imediações de suas vilas operárias. O historiador José Lucio Batista Silva, presidente do Rotary Clube de São Cristóvão, compartilhou um trecho do romance "O Encontro com o outro" (1980), de José Sacramento, em que trata da prática esportiva num deste espaços.


O CAMPO DA FÁBRICA NOVA 
José Sacramento (1980)

O campo de futebol era um local de encontro de operários que residiam na Cruz das Almas, Colina, ladeira de São Gonçalo e ainda na Vila Operária da própria fábrica. Lá matavam o tempo misturado aos desocupados.

Diariamente um time de futebol da cidade treinava no período da tarde. Foi lá que Roberto ensaiou os primeiros vôos, defesas arrojadas, e recebeu os frangos mais comentados. Tinha vocação para goleiro. Aos dezesseis anos vestiu a camisa do São Cristóvão, tinha treinado pelo conhecido Brito Alfaiate. Jogou pelo Fluminense, do bairro de “Pintos” e pelo Santa Cruz, da Avenida que lhe empresta o nome. Conhecida também como “Arrepiada”.

Aqueles que não jogavam bola, disputavam alguns trocados no “pio”. - jogo de dados -, no baralho ou na porrinha. Era um jogo menos cansativo e mais rendoso, diziam os mais velhos. Curtidos pela necessidade de sobreviver trabalhando e recebendo um salário, que mal dava para manter o corpo preguiçoso, doentio. Para Roberto jogar bola de pano, de borracha ou ocasionalmente de couro, na Praça da Matriz, na Praça do Carmo; na Praça São Francisco; no largo “Maria Medeiros”, no Nazul, na Una e numa rua descalça, era comum. Mas no campo da “Fábrica Nova” a coisa mudava, se misturava aos homens feitos, o que fazia se sentir adulto, forte.


Kleckstane Farias fez leitura de crônica de Junot Silveira
Finalizando, Kleckstane Farias, da Casa do IPHAN de São Cristóvão, leu "Ontem e Hoje (11/9/1988)", crônica de Junot Silveira em que lembra do principal jogador da infância nos anos 1930.


                  
Junot Silveira


ONTEM E HOJE (ZECA TENISSON) 
Junot Silveira (1988) 

Vendo tantos carros manobrar no pátio do estacionamento eu me lembrei dos tempos de criança. Da época em que vivi em São Cristóvão com seus casarões coloniais, os seus conventos, os seus frades e suas beatas, as procissões desfilando pelas ruas, a velha fábrica de tecidos que funcionava na cidade baixa.

Era para essa fábrica que passavam, madrugada ainda, dezenas e dezenas de operários pela nossa porta. Eram homens e mulheres que acordavam e calçavam tamancos, pisando em passos rápidos o chão de cimento das calçadas ou o barro das ruas. Acordavam cedinho, com o amanhecer, para se dirigirem ao trabalho, que não ficava perto da residência de todos. À época não havia transporte coletivo; o jeito era utilizar as pernas, caminhar muito mais de um quilômetro par voltar. Iam limpos para o trabalho, limpos como a manhã que respiravam e quando retornavam estavam suarentos, com os corpos visgando e com vestígios de algodão. Traziam do serviço essa lembrança diariamente, e mais o cansaço de lidar com os teares.

Nas tardes de domingo tinham como lazer o futebol, o quadro da própria fábrica, o União Têxtil, se a memória não me trai, fazendo ótimas exibições, frente a representação de outras cidades, inclusive Aracaju. No União Têxtil havia grandes valores, como Zeca Trincheira, um zagueiro pesado e forte e o hábil centroavante Zeca Tenisson. O Zeca Tenisson jogou futebol por mais de 25 anos seguidos, sempre com muita garra, muito empenho e muito brilhantismo. E também com muita discussão em campo, que não era homem para levar desaforo para casa. Por várias e várias vezes seguidas comandou a seleção sergipana que, se nem sempre teve melhor atuação, não foi por sua culpa.

O Zeca Tenisson jogou futebol durante tanto tempo, que eu devia ter os cinco anos de idade quando ele era craque do União Têxtil e, já adolescente, quando contava 17 anos, eu jogava ao seu lado em Laranjeiras e ele me transmitia alguns de seus truques e um pouco de sua experiência e da sua habilidade. Tivesse ele atuado em outros meios, em um centro como Rio de Janeiro ou São Paulo, teria gozado de fama nacional. Fama justa, merecida e não fabricada como é comum acontecer hoje em dia.

O campo do União Têxtil, em São Cristóvão, era aberto; o da Associação Atlética, do Lagarto, colocava uma empanada nos dias de grandes eventos, o de Laranjeiras tinha uma cerca de bambus. No gramado dos três conheci bons atletas, mas nenhum deles se igualava ao Zeca Tenisson.


Crianças marcaram presença na roda de leitura
Crianças que diariamente frequentam a biblioteca chamaram a atenção dos contadores. Elas não apenas acompanharam atentamente a leitura, localizaram com a devida antecedência a obra segundo título de autoria. Revelaram entusiasmo com os textos da quarta roda de leitura realizada pelo Museu Histórico de Sergipe em 2014. As rodas de leituras fazem parte das ações educativas da instituição que teve o Programa Educativo MHS (2011/2012) reconhecido pelo prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade ano passado. 


O evento contou com presença de Sônia Carvalho e Rosineide Nascimento (Proler), incentivadoras do projeto, que também contribuíram com depoimentos e sugestões de leituras a exemplo de "Uma história do futebol", de José Roberto Torero.

GALERIA DE IMAGENS 










FONTES DE PESQUISA

LIMA BARRETO, Afonso Henriques de. Macaquitos (23/10/1920). Toda crônica. Rio de Janeiro: Agir, 2004. v. 2, p. 224 e 433.
LOBATO, Monteiro. O futebol [1905]. In: __. Literatura do Minarete. 5a. ed. São Paulo: Edt. Brasiliense, 1969, p.179-182.
NETO, Coelho. Mano. In: CAPRARO, André Mendes. Futebol e sentimentalismo manifesto na crônica esportiva do início do século XX. 1º Encontro da ALESDE “Esporte na América Latina: atualidade e perspectivas” UFPR, Curitiba/PR, 30, 31/10 e 01/11/2008. Caderno de resumos. http://www.redecedes.ufpr.br/Artigos/70.pdf
RAMOS, Graciliano. Linhas Tortas. 6ª. ed. Rio de Janeiro: Record, 1978, p. 79-83.Esta crônica foi publicada pela primeira vez em "o Índio", em Palmeira dos Índios (AL), em 1921, com o pseudônimo de J. Calisto.
SACRAMENTO, José. O encontro com o outro. Aracaju: Segrase, 1983, p. 17.
SILVEIRA, Junot. Ontem e hoje. A Tarde. Salvador, 11 /9/1988.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

LOBATO POLEMIZADO NUMA RODA DE LEITURA


Alunos dos Colégio Estadual Padre Gaspar Lourenço e do Colégio Estadual Deputado Elísio Carmelo prestigaram na tarde de ontem, 18 de abril, dia Nacional do Livro Infantil, a Roda de Leitura "Polemizando Monteiro Lobato", realizada pelo Museu Histórico de Sergipe, instituição subordinada a Secretaria de Estado da Cultura (SECULT).

Thiago Fragata, diretor do MHS, coordenou o evento que em razão da presença do público aconteceu na Igreja Santa Isabel. Os convidados Aglacy Mary, Ramon Diego, Kleckstane Farias e Maria Gloria fizeram leitura e comentários acerca dos textos lobatianos selecionados para destacar 5 polêmicas. Aconteceu ainda mostra do vídeo "Monteiro Lobato e o futebol" e veiculação da última entrevista concedida por Monteiro Lobato para o rádio.  

POLÊMICA 1 - MONTEIRO LOBATO É RACISTA!

A partir da leitura dos trechos da obra "As caçadas de Pedrinho (1933)", questionados em 2010 junto ao Conselho Nacional de Educação/Ministerio da Educação, como de teor racista é que a educadora e poetisa Aglacy Mary apresentou uma intervenção intitulada "Monteiro Lobato hoje, nas escolas". Ela centrou no professor e no sistema educacional os cuidados sobre o uso das obras infantis de forma geral. Interagindo com a platéia de estudantes, ela apresentou situações diárias que mascaram preconceito, racismo, que é considerado crime pela Constituição de 1988. Enquando intelectual do seu tempo - primeira metade do século XX - Lobato acreditava na superioridade dos europeus, na teoria do branqueamento, ele foi um entusiasta das ideias eugênicas. Naquele contexto histórico tais absurdos não era crime, o raciscmo não era crime. Depois de chegar a anunciar a censura da obra "As caçadas de Pedrinho", o CNE, liberou a obra mediante a fixação de nota explicativas dos trechos polêmicos. 

Uma a uma, outras polêmicas da vida e obra de Monteiro Lobato foram discutidas a partir dos textos que foram compartilhados. Ainda foram divulgado vídeo "Monteiro Lobato e o futebol" e todos ouviram atentamente a última entrevista concedida pelo escritor homenageado. 

Confira textos e imagens da Roda de Leitura "Polemizando Monteiro Lobato".
Kleckstane Farias leu a poesia Passageiros da Imaginação, de Aglacy Mary


PASSAGEIROS DA IMAGINAÇÃO

Que viagem mais fantástica
nós todos podemos fazer.
quer saber qual a passagem?
basta um livro para ler.

Se é com monteiro lobato,
você pode passear
no Sítio do Picapau Amarelo
ou em qualquer outro lugar.

Curioso como era,
Lobato descobriu
terras e mares afora
sem esquecer do Brasil.

Se gosta de traquinagem,
sei que vai se divertir
nas páginas que contam
as aventuras do Saci.

Seja tagarela ou meio calado,
tenho certeza; não me engano
você vai gostar de Emília,
uma linda boneca de pano.

Conheça também a Lúcia,
menina chamada Narizinho:
ela vai sempre ao ribeirão
dar comida aos peixinhos.

Com um estilingue na mala,
chegou alegre que só:
Pedrinho veio passar férias
no sítio da sua vó.

um pé aqui, outro aqui mesmo,
seu Jabuti vai devagar.
tanta carta na mochila
um dia ele consegue entregar.

Se o seu caso é ciência,
se é pessoa estudiosa,
vai logo se envolver
com o Visconde de Sabugosa.

Esquisitice é com ela mesma.
com aquela cara de jacaré,
a dona Cuca apronta todas
e salve-se quem puder.

Quem morre de medo da Cuca,
quem corre de sua careta,
faz bolinhos deliciosos:
é Nastácia – a tia preta.

E quem corre de tia Nastácia
é Rabicó, o porquinho.
se ele não se cuidar,
vai virar mesmo torresminho.

Quantos versos ainda
eu poderia recitar
para falar dessa turma
que Lobato foi inventar?

Seriam quilômetros de poema,
mas por aqui eu vou parar
lembrando de um personagem
que não poderia faltar:

Com tanta danação,
como é que ela aguenta?
deve ter mesmo muito amor
o coração da Vovó Benta.


POLÊMICA 2 - MONTEIRO LOBATO FOLCLORISTA!

Thiago Fragata destacou a contribuição de Lobato para o folclore

MONTEIRO LOBATO, O FOLCLORISTA (TRECHO)
(...)

Nacionalista, Lobato condenava veementemente a influência estrangeira, dita civilizada e moderna, sobre os vários segmentos da cultura nacional. Daí as restrições à matriz inspiradora de alguns articuladores da Semana de Arte Moderna, de 1922, uma vez que defendia o desenraizamento cultural do país. As páginas d“O Estado de São Paulo” foram veículo de seu pensamento e ação. No artigo “A criação do estilo”, publicado em 6 de janeiro de 1917, sugere a incorporação dos elementos do nosso folclore nos cursos de arte, especialmente no Liceu de Artes e Ofícios. Conclama que se realize o “7 de setembro estético”, tendo como paradigma o Saci. 
Embalado pela nota audaciosa, o referido jornal inaugura a coluna “Mitologia Brasílica” convidando os leitores a colaborar na descrição do ente fantástico, filho do inconsciente coletivo. O diário apresenta o seguinte questionário etnográfico: a) qual a concepção pessoal do Saci? Como a recebeu na infância? De quem a recebeu? Qual a forma atual da crendice na zona rural em que reside? c) que história e casos interessantes, “passados ou ouvidos”, sabe a respeito do Saci? A iniciativa gerou correspondência dos Estados do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais, decorrente da “técnica de coleta de dados até então inédita entre os estudiosos do folclore”.
Aproveitando o sucesso da nova “estrela da imprensa paulistana”, Revista do Brasil, de outubro de 1917, divulga polcas, valsas e tangos que tematizam o ícone do folclore nacional. E anuncia concurso de artes plásticas, desafiando os artistas a imortalizarem na tela a mais importante figura do imaginário brasileiro. Concorreram obras de estrangeiros e artistas locais, dentre esses vale ressaltar Celso Mendes, Joab de Castro e Anita Malfatti. A comissão julgadora do certame, ocorrido no dia 18 de outubro de 1919, era composta por Amadeu Amaral, Wasth Rodrigues e o próprio Monteiro Lobato. Roberto Cipicchia venceu com a obra “Saci na cavalhada”, que segundo Lobato teve “interpretação romântica, muito sensata e harmoniosa”.



POLÊMICA 3 - EXPOSIÇÃO DE ANITA MALFATTI

Poeta Ramon Diego leu e comentou crítica de Monteiro Lobato
PARANÓIA OU MISTIFICAÇÃO?
Há duas espécies de artistas. Uma composta dos que vêm as coisas e em consequência fazem arte pura, guardados os eternos ritmos da vida, e adotados, para a concretização das emoções estéticas, os processos clássicos dos grandes mestres.
Quem trilha esta senda, se tem gênio é Praxiteles na Grecia, é Rafael na Itália, é Reynolds na Inglaterra, é Dürer na Alemanha, é Zorn na Suécia, é Rodin na França, é Zuloaga na Espanha. Se tem apenas talento, vai engrossar a plêiade de satélites que gravitam em torno desses sóis imorredoiros.
A outra espécie é formada dos que vêm anormalmente a natureza e a interpretam à luz das teorias efêmeras, sob a sugestão estrábica de escolas rebeldes, surgidas cá e lá como furúnculos da cultura excessiva. São produtos do cansaço e do sadismo de todos os períodos de decadência; são frutos de fim de estação, bichados ao nascedouro. Estrelas cadentes, brilham um instante, as mais das vezes com a luz do escândalo, e somem-se logo nas trevas do esquecimento. (...)
Embora se dêem como novos, como precursores de uma arte a vir, nada é mais velho do que a arte anormal ou teratológica: nasceu como a paranóia e a mistificação.
De há muito que a estudam os psiquiatras em seus tratados, documentando-se nos inúmeros desenhos que ornam as paredes internas dos manicômios. 
A única diferença reside em que nos manicômios essa arte é sincera, produto lógico dos cérebros transtornados pelas mais estranhas psicoses; e fora deles, nas exposições públicas zabumbadas pela imprensa partidária mas não absorvidas pelo público que compra, não há sinceridade nenhuma, nem nenhuma lógica, sendo tudo mistificação pura. (...)
Os homens têm o vezo de não tomar a sério as mulheres artistas. Essa é a razão de as cumularem de amabilidades sempre que elas pedem opinião.
Tal cavalheirismo é falso; e sobre falso nocivo. Quantos talentos de primeira água não transviou, não arrastou por maus caminhos, o elogio incondicional e mentiroso? Se víssemos na Sra. Malfatti apenas a «moça prendada que pinta», como as há por aí às centenas, calar-nos-íamos, ou talvez lhe déssemos meia-dúzia desses adjetivos bombons que a crítica açucarada tem sempre à mão em se tratando de moças. Julgamo-la, porém, merecedora da alta homenagem que é ser tomada a sério e receber a respeito de sua arte uma opinião sinceríssima. (Monteiro Lobato, 1917) 
POLÊMICA 4 - A DEFESA DO FERRO E DO PETRÓLEO
Arthur fez a leitura da carta que ocasionou a prisão de Monteiro Lobato em 1941


CARTA AO PRESIDENTE GETÚLIO VARGAS



São Paulo, 20 de janeiro de 1935

Dr. Getúlio Vargas
Por intermédio do meu amigo Rônald de Carvalho, procurei no dia 15 do corrente, fazer chegar ao seu conhecimento uma exposição confidencial sobre o caso do petróleo, estou na incerteza se esse escrito chegou a destino. Talvez se perdesse no desastre do dia 20. E como se trata de documento de muita importância pelas revelações que faz, seria de toda conveniência que eu fosse informado a respeito. Nele denuncio as manobras da Standard Oil para senhorear-se das nossas melhores terras potencialmente petrolíferas, confissão feita em carta pelo próprio diretor dos serviços geológicos da Standard Oil of Argentina, que é o tentáculo do polvo que manipula o brasil. E isso com a cooperação efetiva do sr. Victor Oppenheim e Mark Malamphy, elementos seus que essa companhia insinuou ou no Serviço Geológico e agora dirigem tudo lá, sob o olho palerma e inocentíssimo do dr. Fleuri da Rocha. É de tal valor a confissão, que se eu der a público com os respectivos comentários o público ficará seriamente abalado.
Acabo agora de obter mai uma prova da duplicidade desse Oppenheim, cornaca do Fleuri. Em comunicação reservada que ele enviou para a Argentina ele diz justamente o contrário, quanto às possibilidades petrolíferas do Sul do Brasil, do que faz aqui o Fleuri pelos jornais, com o objetivo de embaraçar a marcha dos trabalhos da Companhia Petróleos.
O assunto é extremamente sério e faz jus ao exame sereno do Presidente da República, pois que as nossas melhores jazidas de minérios já caíram em mãos estrangeiras e no passo em que as coisas vão o mesmo se dará com as terras potencialmente petrolíferas. E já hoje ninguém poderá negar isso visto que tenho uma carta em que o chefe dos serviços geológicos da Standard ingenuamente confessa tudo, e declara que a intenção dessa companhia é manter o Brasil em estado de "escravização petrolífera".
Aproveito o ensejo para lembrar que ainda não recebi os papéis, ou estudos preliminares do serviço que V. Excia. Tinha em vista organizar, por ocasião do encontro que tivemos em fins do ano passado, no Palácio Guanabara.
Respeitosamente,
J. B. Monteiro Lobato


POLEMICA 5 - JECA TATU É O SERTANEJO!

Maria Gloria leu mais um artigo que gerou polêmica de Monteiro Lobato
VELHA PRAGA (TRECHO)
Quem foi o incendiário? Donde partiu o fogo? 
Indaga-se, descobre-se o Nero: é um urumbeva qualquer, de barba rala, amoitado num litro de terra litigiosa.
E agora? Que fazer? Processá-lo? Não há recurso legal contra ele. 
A única pena possível, barata, fácil e já estabelecida como praxe, é “tocá-lo”. Curioso este preceito: “ao caboclo, toca-se”. Toca-se, como se toca um cachorro importuno, ou uma galinha que vareja pela sala. E tão afeito anda ele a isso, que é comum ouví-lo dizer: “Se eu fizer tal coisa o senhor não me toca?”
Justiça sumária – que não pune, entretanto, dado o nomadismo do paciente.
Enquanto a mata arde, o caboclo regala-se. 
- Êta fogo bonito! 
No vazio de sua vida semi-selvagem, em que os incidentes são um jacú abatido, uma paca fisgada n’água ou o filho novimensal, a queimada é o grande espetáculo do ano, supremo regalo dos olhos e dos ouvidos.
Entrado setembro, começo das “águas”, o caboclo planta na terra em cinzas um bocado de milho, feijão e arroz; mas o valor da sua produção é nenhum diante dos males que para preparar uma quarta de chão ele semeou.
O caboclo é uma quantidade negativa. Tala cincoenta alqueires de terra para extrair deles o com que passar fome e frio durante o ano. Calcula as sementeiras pelo máximo da sua resistência às privações. Nem mais, nem menos. “Dando para passar fome”, sem virem a morrer disso, ele, a mulher e o cachorro – está tudo muito bem; assim fez o pai, o avô; assim fará a prole empanzinada que naquele momento brinca nua no terreiro. 
Quando se exaure a terra, o agregado muda de sítio. No lugar fica a tapera e o sapezeiro. Um ano que passe e só este atestará a sua estada ali; o mais se apaga como por encanto. A terra reabsorve os frágeis materiais da choça e, como nem sequer uma laranjeira ele plantou, nada mais lembra a passagem por ali do Manoel Peroba, do Chico Marimbondo, do Jéca Tatú ou outros sons ignaros, de dolorosa memória para a natureza circunvizinha. (Monteiro Lobato, 1914)
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