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quinta-feira, 24 de outubro de 2013

MUSEU HISTÓRICO DE SERGIPE RECEBEU PRÊMIO DO IPHAN

Thiago Fragata recebeu prêmio de Terezinha Oliva e Jurema Machado. Foto: San Rogê

 
O Museu Histórico de Sergipe, unidade da Secretaria de Estado da Cultura, foi uma das instituições homenageadas na solenidade ocorrida na última quinta, 17/10, no Cine Brasília, da Capital Federal. A cerimonia dos vencedores do edital Rodrigo Melo Franco de Andrade 2013, a mais importante premiação brasileira voltada para a preservação do patrimônio cultural foi organizada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) que reuniu representantes das 8 (oito) iniciativas selecionadas de seis estados brasileiros: Pará, Bahia, Paraíba, Pernambuco, São Paulo e Sergipe. Este teve ainda o Museu da Gente Sergipana (Banese) premiado na categoria responsabilidade social.

Comitiva representante do Museu da Gente Sergipana, Terezinha Oliva e Thiago Fragata
O diretor do Museu Histórico de Sergipe, Thiago Fragata, participou da solenidade que contou as presenças da Presidente do IPHAN, Jurema Machado, do presidente do Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM), Ângelo Oswaldo, representantes da comissão julgadora do prêmio, da superintendente do IPHAN/Sergipe, Terezinha Oliva, demais autoridades e convidados.

Ao receber a placa que simboliza o reconhecimento do Programa Educativo do Museu Histórico de Sergipe, desenvolvido entre os anos de 2010 e 2012, que realizou exposições, palestras, eventos como Noite de Histórias, Círculo dos Ogãs, dentre outros, o diretor informou que “o prêmio é fruto da ousadia, parcerias e do trabalho. Ousadia de uma equipe que junto com instituições parceiras fez do Museu Histórico de Sergipe mais que uma casa de visitas. O prêmio destacou as ações educativas executadas nos últimos três anos por isso agradeço aos parceiros, ao Governo do Sergipe e a Secretaria de Estado da Cultura que acreditaram em nossa competência e em nossa gestão”.

Diante da ênfase as ações educativas de mobilização para campanha da Praça São Francisco, Patrimônio da Humanidade, de 2010, a exemplo do projeto Noite de Histórias, o diretor Fragata informou ainda que a referida campanha já rendeu homenagens como a comenda Mérito Aperipê e que o Museu Histórico de Sergipe aquartelou diversas ações da comissão pró-candidatura. Feliz com o destaque nacional alcançado, a direção da instituição reapresentará no próximo dia 1 de novembro, às 10hs, a exposição temporária “Praça São Francisco: o processo da conquista”, uma das ações bem avaliadas pela comissão organizadora do Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade. Um módulo especial vai expor as premiações e o Desempenho MHS 2010/2012.


Representação premiada e Comissão Julgadora. Foto: San Rogê


terça-feira, 12 de março de 2013

Revisão na biografia de João Bebe-Água

Apenas um cachaceiro, assim dizia seus inimigos. Xilogravura de André Gustavo, 2005.

Por Thiago Fragata*



A Mudança da Capital de São Cristóvão para o povoado de Santo Antônio do Aracaju constitui o segundo tema mais estudado na historiografia sergipana, perdendo somente para a questão dos limites entre Sergipe e Bahia. No entanto, boa parte dessa produção pautou-se em discutir a origem e povoamento de Aracaju, o mérito/demérito e acerto/erro do governante Inácio Joaquim Barbosa, o grau de ingerência de João Gomes de Mello, o Barão de Maruim, na decisão política.

Numa perspectiva inovadora para época, 1942, o jovem José Calasans Brandão da Silva apresentou sua tese para concurso à cadeira de História do Brasil e de Sergipe da Escola Normal. Na visão calasiana a decisão teve fatores externos ou nacionais, como a política de conciliação inaugurada pelo Marques de Paraná, a era Mauá e uma mentalidade mercantil. Mas também, apresentou fatores internos ou regionais, como o fato do escoamento da produção taxada na capital São Cristóvão depender das marés do rio Paramopama, afluente do rio Vaza Barris. Sem esquecer que a zona mais próspera da Província chamava-se Cotingüiba e nela se achava assentada a economia sergipana. Em resumo, Calasans atenta para uma tendência nacional de mudar a sede para beira-mar mostrando que Alagoas (1832) e Piauí (1851) fizeram o mesmo naquele contexto.   

Mas falando de João Bebe-Água ou de João Nepomuceno Borges, vejamos o que foi possível apurar nas recentes pesquisas. A primeira etapa da organização do Arquivo da Prefeitura Municipal de São Cristóvão, em 2006, revelou novidades sobre o enigmático sujeito que nos convida a reflexão acerca da visão depreciativa e caricata que ganhou foros de verdade em razão da repetição ao longo do tempo.

Antes gostaria de esclarecer que a intenção aqui não é heroicizar a personagem que vencida pela ação dos adversários políticos – João Bebe-Água era membro do Partido Liberal. Ele viu seu comercio falir, foi rotulado louco, patriota insano, um maltrapilho que morreu sonhando com o retorno da capital a guardar foguetes para estourar nesse dia.

Lembrando conhecido jargão da historiografia francesa “História faz-se com documentos”. Eis que entre papéis antigos do Arquivo da Prefeitura de São Cristóvão descobrimos que o homem simples gozava de prestígio perante a população sancristovense. Era vereador em 1864, cargo não-remunerado naquela época. O termo de sua posse (29/09) informa que João Nepomuceno Borges era vereador re-eleito.1

Ao correr os olhos no citado Livro de Eleições não demoramos a encontrar João Nepomuceno Borges como juiz de paz em 1893. Sabemos que ele não tinha formação em ciências jurídicas, o que não era requisito para o desempenho das atividades inerentes ao cargo, atinente a resolução de problemas da ordem pública e organização das eleições de vereadores e juízes. Manuel dos Passos de Oliveira Teles, juiz de órfãos de São Cristóvão, na época, afirmou ter conhecido João Bebe-Água e garante que ele “não foi louco, não foi um mendigo, era um resignado”.2 Por sua vez, Sebrão Sobrinho, mesmo discordando de Manuel dos Passos em quase tudo, assegura que “João Bebe-Água não foi um tipo à-toa”.3 

Vereador, juiz, beato, pesquisas revelam um outro João Bebe-Água. Xilogravura de Nivaldo Oliveira, 2013

Tais evidências levam a refletir o quanto a imagem depreciativa de João Bebe-Água, ora assentada no alcoolismo, ora na insanidade barrista, deve ser ponderada. Pela sua dimensão humana e protagonista, é hora de apreciar sua biografia como uma lição de amor a terra natal, São Cristóvão.  É justamente nesta aura que é preciso fazer uma revisão sobre a Mudança da Capital e especialmente sobre João Bebe-Água.


*Thiago Fragata é especialista em História Cultural (UFS), sócio efetivo do IHGSE e Diretor do Museu Histórico de Sergipe. E-mail: thiagofragata@gmail.com
REFERÊNCIAS:  
1 - APMSC, São Cristóvão. Livro de Eleição do Câmara Municipal - 1848/1893. Manuscrito, 
2 - TELES, Manuel dos Passos de Oliveira. João Bebe-Água. In: __. Sergipenses. Aracaju: Typ. d’O Estado de Sergipe, 1896, p. 61; 
3 - SOBRINHO, Sebrão. Laudas para a História de Aracaju. Aracaju: Liv. Regina, s/a, p. 65.